
O garoto Charlinhos foi criado com outros cinco irmãos, três mais velhos que o enchiam de porrada diariamente e dois mais novos, nos quais ele tentava imitar o que os mais velhos faziam com ele, em uma humilde casa de três cômodos. A cozinha-sala, onde tinha basicamente um fogão e a televisão, o quarto dos pais e o quarto dos irmãos. Seu pai trabalhava diariamente em uma fazenda que ficava a quilômetros de distância da casa deles e só voltava nos finais de semana com o dinheiro que mal dava pra alimentar ele próprio e ainda tinha que servir para toda a família, afinal a mãe não trabalhava. Trabalhar ela trabalhava, não pense que tomar conta da casa e de seis filhos bagunceiros feito eram Charlinhos e seus irmãos era algo muito mais fácil que o trabalho do pai, mas não era remunerada por isso. Nem um “mamãe te amo” ela recebia ao fim do dia.
Apesar das dificuldades evidentes, Charlinhos cresceu recebendo uma boa educação e com muita dedicação, conseguiu entrar na FIP – Faculdade Inscreveu? Passou! – para o curso de biblioteconomia. Ao término da faculdade, o garoto se deparou com um dos momentos mais decisivos da vida de uma pessoa hoje, nessa selva que é o mercado de trabalho:
Entrevista de Emprego.
Porém, para ele não era nada assustador. Diferente da grande maioria, ele encarava essas entrevistas com alegria, gostava delas.
Charlinhos já havia passado por algumas quando ainda menino: na ferroaria da esquina, no carrinho de Hot Dog da Tia Sônia e até para catador de latinhas – sim, até pra isso tá precisando de entrevista de emprego, não é brincadeira não. Mas a mais notória de todas, que mudou todo seu conceito sobre entrevistas de emprego, foi uma que se deu aos seus dezesseis anos de idade. A família passava por uma crise e ele precisava de dar uma ajuda. Comentou isso com seu colega de sala, Tonho, que lembrou-se de um tio que estava precisando urgentemente de um empregado para sua empresa. Charlinhos na hora pediu o telefone dele para Tonho e logo quando terminou a aula, saiu correndo pro orelhão mais próximo do colégio.
-Alô, é o tio do Tonho?
-Pois não, senhor. O que desejas?
- Aqui é o Charles, sô colega dele, tudo bão?
-Opa, prazer Charles. Pode me chamar de Arnaldo.
-Então seu Arnaldo, eu ouvi dizê que o sinhô tá com uma vaga de emprego ai na sua empresa, é verdade?
-Bom, mais ou menos…
-Comassim mais ou menos? É ou num é, sinhô?
-Bom, de fato eu estou precisando de um assistente aqui, mas não é bem uma empresa. O negócio é o seguinte: eu sou Biólogo e tenho aqui um borboletário com algumas das borboletas em maior risco de extinção do planeta, cê ta entendendo?
-Tô sim sinhô. E ai, tu quer que eu fique ai tomando conta das borboleta, é isso aí?
-Não, prum trabalho desse é necessário muita qualificação e já tenho 15 desses (por turno) lá no meu borboletário. O que eu to precisando é de um trabalho mais íntimo… Tem que ter uma boa mão. Você acha qu-
-ôoÔ doutô, o sinhô vai me desculpar mas CÊ TÁ ME ESTRANHANDO? Quero saber dessas boiolagem não sõ.
-Calma, não é nada disso. O que eu preciso é de um catador de fezes de borboleta, pois estamos desenvolvendo essa pesquisa e é capaz de acharmos a cura pra AIDS nas fezes de borbol-
- Peraí, deixa eu ver se eu entendi. Ocê quer que eu saia catando cocô de borboleta, é isso mesmo?
-Bom… resumidamente sim.
Charlinhos já estava prestes a desligar o telefone na cara de Arnaldo, mas a última frase foi reconfortante e o fez mudar de ideia.
-E estamos prometendo um salário bem alto.
Neste exato momento, foi como se todos os problemas de sua vida tivessem sido resolvidos. Eufórico, ele respondeu:
-Pois então eu estou dentro, sinhô. Quando eu já posso começar?
-Não é bem assim, meu rapaz. Você tem que vir aqui fazer uma entrevista e só então poderemos responder se o emprego é seu o não.
-E como funciona esse negócio de entrevista??
-Ora, você vai vir aqui, vamos te fazer algumas perguntas, você vai respondendo e se tudo estiver de acordo com o que necessitamos, poderemos te aceitar como empregado o mais breve possível.
Vale ressaltar que pela falta de dinheiro e estrutura familiar, o maior passa tempo de Charlinhos era passar os finais de semana em frente a televisão, assistindo o Show do Milhão e vibrando a cada resposta, sonhando em um dia poder estar lá. Eram momentos de alegria dos quais o garoto para sempre vai se lembrar. As tardes e noites de finais de semana, banhadas a biscoito Cream-Cracker, leite em pó e Show do Milhão. Como poderia se esquecer? Para ele não havia representação maior de felicidade do que essa.
Portanto, assim que ouviu o que Arnaldo disse “você vai vir aqui, vamos te fazer algumas perguntas, você vai respondendo e se tudo estiver de acordo com o que necessitamos, poderemos te aceitar como empregado o mais breve possível”, a primeira imagem que lhe veio a cabeça foi exatamente esta:
e o que ele ouviu, na verdade, foi: “VOCÊ VAI PARTICIPAR DO SHOW DO MILHÃO” na voz de Silvio Santos.
Desde então, a visão que Charlinhos tem de entrevistas de emprego é essa. O Show do Milhão da vida real.
E até que ele não está errado. Se fizermos uma boa análise, perceberemos que é essencialmente isso. Vejo só:
Tem um maluco totalmente idiota mas infinitamente mais rico que você que tenta transparecer sério e trabalhador. Ele te encara e faz perguntas TOTALMENTE SEM NOÇÃO, do tipo “qual animal você gostaria de ser? Justifique.”, “quantas vezes o Rei D. Guilhermino VI da Dinamarca espirrou e peidou ao mesmo tempo durante toda sua vida?” ou até mesmo “aonde vão parar as canetas bic??” querendo que você ache que elas tenham algum fundamento.
Do outro lado, tem você. Está aflito. A cada pergunta é um Rio Amazonas de suor que desce do seu suvaco, pernas e até desse buço bigodudo que a senhora já passou da hora de depilar. Tenta responder seriamente, vendo que de algum modo um “a” não crasiado pode arruinar seu futuro e acaba dando respostas tão sem noção quanto as perguntas, senão mais.
Por fim, quando a vergonha alheia já tomou conta da sala e começa a vazar pelas frestas, você recebe o miserável prêmio ou é ainda mais humilhado e frustrado, e um carimbo molhado em tinta vermelha é pressionado contra sua testa deixando a seguinte marca:
A única diferença é que, ao contrário do show do milhão, nas entrevistas de emprego você não pode falar tanta merda e por isso não traz tanta diversão pro UNIVERSO assim, como dona Maria.
***
Pois é amigos, depois de uma estréia fracassada (há uns oito meses atrás postei duas vezes e sumi completamente), estou de volta. Em minha defesa, estive muito ocupado esse ano e foi difícil. Apesar de, admito, sou meio, digo, bastante preguiçoso. Peço desculpas mas afirmo que se possível, vou atualizar aqui semanalmente agora. Mesmo final de ano sendo mais corrido ainda, to com alguns textos na cabeça já.
Só pra finalizar, gostaria de citar o grande poeta:
beijo pras gata e abs pros mano
e me segue lá: @calma_la.

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Dani
em 10/11/2011 às 23:05 #1realmente, entrevista de emprego tem muita pergunta inútil só pra deixar o entrevistado mais tenso…
Isa
em 11/11/2011 às 00:22 #2Ta legal, meu amigo, mas acho que você pode melhor, ainda assim, indicarei.